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Hutmold

Cinco anos depois do último disco e vários projetos depois, Mils Crianças veio não para surpreender um público que já admirava as matemáticas nuances de rock instrumental do Hurtmold. Veio, isso sim, para nos dar a certeza de que a banda paulistana ainda está aí como um dos coletivos mais criativos da música brasileira.

É sempre suspeito fazer uma análise de um grupo instrumental. Como os próprios afirmaram recentemente numa entrevista à +Soma, vários rótulos estranhos foram criados para definir a sonoridade do grupo, incluindo aí post-rock e nu jazz.

Uma vez que a música instrumental brasileira cresce cada vez mais, já passou o tempo de realmente se discutir e saber definir melhor o que um grupo ou outro faz. Mils Crianças, possivelmente, pode ser o disco mais desafiador a provocar tal discussão, por englobar elementos distintos de músicos que têm referências distintas entre si – vide os inúmeros projetos paralelos de cada integrante, como Bodes & Elefantes, Um reais, MDM etc.

Sexto disco oficial do grupo, Mils Crianças é um trabalho em que as ideias dos músicos são resumidas em canções mais curtas, resultado de uma sinergia de longos anos de trabalho. Em alguns momentos, percebe-se que os riffs circulares das guitarras de Fernando Cappie Mário Cappi conduzem a um rock que tem vontade de explodir (“Hervi”), mas o baixo de Marcos Gerez entra e arremessa o ouvinte para uma sonoridade mais lenta que vai encontrar paralelo na world music oriental – ainda mais perceptível nos teclados de Guilherme Granado.

Além de ser a mais longa do disco (5min51s), “Hervi” é a canção onde mais se encontram rupturas estéticas em seu andamento, algo bem explorado no hermético Mestro (2004).

“Chavera”, a primeira amostra do disco, é praticamente uma bagunça de síncopes. O baterista M. Takara brinca com a expectativa do ouvinte logo nos primeiros minutos, mas logo cede para fazer um passeio por batidas lúdicas tal qual um mini-game dos anos 1990. Ele está no domínio ali, com a assertividade dos riffs de guitarra. Mal sabe o ouvinte que é esse vai-não-vai que faz da canção um típico produto do Hurtmold.

As influências do afro-beat ficam latentes na percussão de Rogério Martins em “Tomele Tomele”, mas não espere a entrada de um solo vigoroso de sopro. Teclados e guitarras distorcidas fazem uma breve passagem, para que a canção tome uma dinâmica jazzística por conta da bateria de Takara, e aí o Hurtmold encontra uma verve tropical distinta, misturando a secura do rock alternativo com a contida alegria percussiva de nossa música.

Matematicamente bagunçado e organizadamente punk, o Hurtmold é uma banda que não pode ser encaixada em estéticas. Catorze anos depois, o combustível da banda continua sendo essa anarquia não-definidora, que mexe com os sentidos e surpreende a ponto de provocar distintas reações.